e disse o Senhor: desfaça-se a luz, e a luz se desfez.
ao mesmo tempo apagaram-se as luzes elétricas, os fósforos e as estrelas.
os vagalumes deixaram de piscar, o Melanocetus johnsonii perdeu seu truque luminoso, as algas e o krill pararam de brilhar.
joana estremeceu em sua cama.
a luz do banheiro que entrava pela fresta de sua porta se apagara de repente.
desde que era criança ela não conseguia dormir no escuro, com medo de monstros e estupradores furtivos. agora, aos setenta e seis anos ela ainda não se curara das manias nem dos temores antigos.
tudo estava às escuras em sua casa, que tinha ao menos o dobro de sua idade. ela levantou da cama, tateando as paredes, tropeçando em algo grande e sólido.
no meio de um parque de uma grande cidade de um país qualquer uma mulher dava à luz, às escuras. chorava e gritava de dor e medo. achava ter ficado cega, pois não só as luzes dos postes haviam se apagado, mas também a lua cheia e as estrelas não mais brilhavam.
casais continuaram se beijando nos cinemas, mais tantos outros continuaram trepando debaixo dos cobertores. outros continuaram dormindo, sonhando com dias ensolarados. os jornalistas pediam desculpas aos telespectadores pela falha técnica, mas logo descobriram que o apagão era mundial.
- vou te chamar lúcia, disse a nova mãe à pequena, envolta em sangue e escuridão.
nasceu de olhos abertos.
ao mesmo tempo apagaram-se as luzes elétricas, os fósforos e as estrelas.
os vagalumes deixaram de piscar, o Melanocetus johnsonii perdeu seu truque luminoso, as algas e o krill pararam de brilhar.
joana estremeceu em sua cama.
a luz do banheiro que entrava pela fresta de sua porta se apagara de repente.
desde que era criança ela não conseguia dormir no escuro, com medo de monstros e estupradores furtivos. agora, aos setenta e seis anos ela ainda não se curara das manias nem dos temores antigos.
tudo estava às escuras em sua casa, que tinha ao menos o dobro de sua idade. ela levantou da cama, tateando as paredes, tropeçando em algo grande e sólido.
no meio de um parque de uma grande cidade de um país qualquer uma mulher dava à luz, às escuras. chorava e gritava de dor e medo. achava ter ficado cega, pois não só as luzes dos postes haviam se apagado, mas também a lua cheia e as estrelas não mais brilhavam.
casais continuaram se beijando nos cinemas, mais tantos outros continuaram trepando debaixo dos cobertores. outros continuaram dormindo, sonhando com dias ensolarados. os jornalistas pediam desculpas aos telespectadores pela falha técnica, mas logo descobriram que o apagão era mundial.
- vou te chamar lúcia, disse a nova mãe à pequena, envolta em sangue e escuridão.
nasceu de olhos abertos.
das mensagens sutis
Filed Under () by Mazé Mixo on sexta-feira, 30 de abril de 2010
Posted at : 23:17
sempre que vejo esse comercial eu fico puto.
por que o cara não troca ele mesmo a pastilha, ao invés de chamar a mulher?
seu nome era enahuac.
o mundo era menor naquela época, e seu povo só conhecia as grandes montanhas de um lado, e o rio das pedras do outro.
não deveriam ir a lugares de onde não enxergavam as montanhas. não deveriam adentrar a floresta onde não podiam mais ouvir as águas do rio.
o jovem crescia a cada dia, e em breve deveria ser escolhido por uma mulher pra ser seu marido.
um dia procurava por raízes doces quando ouviu um canto que nunca tinha ouvido, e como que hipnotizado, correu por entre as árvores, parando apenas pra ter certeza que o canto estava mais próximo.
não percebeu que se afastara muito mais do que devia de seu rio e de seu povo.
as árvores que o rodeavam eram antigas, com folhas estranhas que exalavam cheiros que não conhecia.
chegou enfim a uma clareira, e o canto era agora completamente claro. voz de mulher. voz que parecia se multiplicar em muitas. voz de muitos pássaros.
ele tinha muita dificuldade de respirar, tanto por ter corrido por tanto tempo, tanto pela visão que lhe roubava o ar. uma jovem desnuda, com grandes asas, deitada na vegetação rasteira.
conhecia as estórias das vinyänáras, sabia o que aconteceria se se aproximasse demais. mas ao invés disso, caminhou até ela.
esqueceu-se quem era, esqueceu-se das canções e das cores. caiu em torpor e êxtase.
ela só cantava.
quando terminou ela virou-se para ver o que tinha atraído e viu o jovem caído sob as raízes entrelaçadas de umas das árvores azuis. não respirava.
ela retirou uma pena de sua asa e colocou nas mãos do jovem, que se encolheu, a tossir. um grande vendo levantou as folhas caídas de toda a clareira, e por alguns segundos nada pôde-se ver.
ele levantou-se, então, e sua cabeça era a de uma águia.
a vinyänára tomou-o em seus braços e alçou vôo.
sumiram nas nuvens, onde não se viam as montanhas nem ouvia-se o rio.
o mundo era menor naquela época, e seu povo só conhecia as grandes montanhas de um lado, e o rio das pedras do outro.
não deveriam ir a lugares de onde não enxergavam as montanhas. não deveriam adentrar a floresta onde não podiam mais ouvir as águas do rio.
o jovem crescia a cada dia, e em breve deveria ser escolhido por uma mulher pra ser seu marido.
um dia procurava por raízes doces quando ouviu um canto que nunca tinha ouvido, e como que hipnotizado, correu por entre as árvores, parando apenas pra ter certeza que o canto estava mais próximo.
não percebeu que se afastara muito mais do que devia de seu rio e de seu povo.
as árvores que o rodeavam eram antigas, com folhas estranhas que exalavam cheiros que não conhecia.
chegou enfim a uma clareira, e o canto era agora completamente claro. voz de mulher. voz que parecia se multiplicar em muitas. voz de muitos pássaros.
ele tinha muita dificuldade de respirar, tanto por ter corrido por tanto tempo, tanto pela visão que lhe roubava o ar. uma jovem desnuda, com grandes asas, deitada na vegetação rasteira.
conhecia as estórias das vinyänáras, sabia o que aconteceria se se aproximasse demais. mas ao invés disso, caminhou até ela.
esqueceu-se quem era, esqueceu-se das canções e das cores. caiu em torpor e êxtase.
ela só cantava.
quando terminou ela virou-se para ver o que tinha atraído e viu o jovem caído sob as raízes entrelaçadas de umas das árvores azuis. não respirava.
ela retirou uma pena de sua asa e colocou nas mãos do jovem, que se encolheu, a tossir. um grande vendo levantou as folhas caídas de toda a clareira, e por alguns segundos nada pôde-se ver.
ele levantou-se, então, e sua cabeça era a de uma águia.
a vinyänára tomou-o em seus braços e alçou vôo.
sumiram nas nuvens, onde não se viam as montanhas nem ouvia-se o rio.
on into the void he flies.
unafraid.
there is nothing in mere absence that might cow him.
or loneliness.
or the lack of maps or charts.
for he is his own path.
he sees by his own light.
we watch him from a great distance.
from a vantage point no less subjective, no less absolute.
and so it´s hard to tell whether he imposes himself on the emptiness...
or becames it.
unafraid.
there is nothing in mere absence that might cow him.
or loneliness.
or the lack of maps or charts.
for he is his own path.
he sees by his own light.
we watch him from a great distance.
from a vantage point no less subjective, no less absolute.
and so it´s hard to tell whether he imposes himself on the emptiness...
or becames it.
feitio de oração (wally salomão)
Filed Under () by Mazé Mixo on terça-feira, 13 de abril de 2010
Posted at : 16:20
ó garrafada das ervas maceradas do breu das brenhas
se adonai de mim e do meu peito lacerado
ó senhora dos remédios
ó doce dona
ó chá
ó ungüento
ó destilado
ó camomila
ó belladona
ó phármakon
respingai grossas
gotas de vossos venenos
ó doce dona
ó camomila
ó belladona
serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas
ó senhora dos sem remédios
domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos
se desprendem dos trapézios
e, tontas, buscam o abraço fraterno e solidário dos espaços vácuos
ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas
adonai-vos do peito lacerado e do lenho oco que ocupo
se adonai de mim e do meu peito lacerado
ó senhora dos remédios
ó doce dona
ó chá
ó ungüento
ó destilado
ó camomila
ó belladona
ó phármakon
respingai grossas
gotas de vossos venenos
ó doce dona
ó camomila
ó belladona
serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas
ó senhora dos sem remédios
domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos
se desprendem dos trapézios
e, tontas, buscam o abraço fraterno e solidário dos espaços vácuos
ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas
adonai-vos do peito lacerado e do lenho oco que ocupo
a cachoeira era alta. a maior que ele já tinha visto de cima.o início da trilha era fácil, sem maiores problemas. entre grandes bambus e mirantes, mas o caminho pra queda-d'água estava escondido no barranco de mata fechada. se não estivesse com pessoas que conhecem o local não teria acertado a trilha.
desceram se apoiando em grandes raízes que saíam da terra pra entrar novamente uns centímetro afrente. em alguns trechos tinha que se pendurar, em outros as raízes faziam uma escada natural, firme e segura. haviam cogumelos no caminho, mas ele não os viu. o ruído calmo da água lá em baixo mostrava a direção.
quando chegaram ele estava suado e exausto, mas com um sorriso no rosto e com ânimo reforçado.
uma pequena bacia de água precedia a queda, que devia ter uns 70 metros ou mais. sentaram-se todos, a conversar e fotografar, felizes por terem chegado em seu destino. alto do véu da noiva, parque municipal, nova iguaçu.
bebeu um gole da água, que a essa altura estava quase terminando, e comeu um biscoito enquanto os outros olhavam pra baixo e fotografavam bem perto da queda. ele tremia ao pensar em chegar perto demais, mas queria sentir o vento, ver a água caindo no vazio.
tirou as sandálias, que tinham mais atrapalhado que ajudado até ali, e resolveu colocar os pés na água, caminhando pela rasa bacia. os outros estavam na parte seca da pedra, bem na beirada, mas ele não quis ir por ali.
viu pequenas folhas secas caírem na bacia e lentamente chegarem perto da borda, até desaparecerem de vista.
com um suspiro pra tomar coragem ele chegou, enfim, à queda. fechou os olhos, tremeu e se lembrou de quando morrera ali.
se recordou dos espinhos, das decisões e do som do vento passando rápido por seu corpo.
abriu os olhos e os braços, confuso, e não pensou em mais nada.
pela segunda vez, pulou.
Começou numa quinta-feira.
A primeira, já muito velha, vivia num bosque esquecido na Romênia. Ninguém percebeu.
A segunda estava no pátio central de uma grande empresa canadense. E mesmo assim ninguém percebeu.
Uma a uma elas secaram, e assim ficaram. Mortas. De pé.
--
A menina nem era tão menina assim. Já tinha conhecido o amor e a decepção. Já tinha quebrado o braço e escrito nomes por todo o gesso. Já tinha passado mal de tanto comer as mangas do seu quintal.
A pequena mangueira estava lá desde antes de se mudarem praquela casa apertada. Sua mãe havia tentado cortar a árvore pra ganhar espaço pra um novo varal, mas desistiu depois do choro desesperado da filha, que se apegara à planta como se fosse uma amiga.
A condição foi que a filha varresse as folhas caídas todo santo dia, e que não inventasse de se machucar com o balanço improvisado (promessa essa que não conseguiu cumprir). Sua primeira e melhor amiga foi aquela mangueira, que ouvia sobre os meninos da escola, que servia de sombra nos dias quentes, que fazia crescer as mangas mais deliciosas nos galhos mais baixos, só pra menina conseguir alcançar.
Cresciam juntas, cresciam rapidamente.
--
Não havia pressa.
Os jornalistas só começaram a escrever quando o aumento das temperaturas já era constante e ininterrupto. Um grau a cada mês. Os ambientalistas fizeram piquetes, os profetas do apocalipse subiram em seus caixotes pregando a desgraça da humanidade, os industriais disseram que não tinham culpa.
Foi então que, cruzando dados, eles perceberam o que ocorria.
Florestas inteiras secaram. Pastos, campos e até manguezais secaram. Plantas de todos os tipos, por todo o planeta, sem qualquer motivo aparente, simplesmente secavam e morriam. De pé.
--
A aula tinha sido cancelada, o que trazia um certo alívio. Ter de pensar em vestibular naquele calor era demais pra ela. Resolveu ir pra casa andando, cortando caminho pelo pequeno bosque que ficava entre sua casa e a escola. Conhecia o lugar muito bem, pois já tinha supostamente se deixado conduzir pra alguns daqueles cantos por um ou outro rapaz.
Sorria pensando nisso quando parou pra ver a grama amarelando diante de seus olhos. As goiabas dos pés próximos caíam, podres. Antes de chegar em casa, todo aquele bosque secara.Ela correu em disparada, com o coração apertado, temendo por sua mangueira. Aquela loucura noticiada na TV finalmente começava a acontecer por perto.
--
Pois agora não havia retorno. Mesmo as sementes estocadas viravam pó, mesmo as mais bem cuidadas estufas não conseguiam reter a vida das plantas mais simples. Era como se todas tivessem sido envenenadas, ao mesmo tempo, por todo o planeta. Só as plantas.
As presidentes, primeiros-ministros e ditadores foram à televisão. Disseram que suas pátrias não precisavam temer, que haviam planos de emergência, que haviam estoques de comida, que tudo ficaria bem. Mentiram, como sempre.
Os homens que sempre viveram da terra choravam e rezavam à seus deuses. Os homens que sempre acreditaram não viver da terra choravam e rezavam à sua ciência. Mas a natureza não ouviu o choro de ninguém. Nem as orações.
--
A menina já não saía de perto de sua árvore há alguns dias. Tinha medo que se virasse as costas sua mangueira secaria como todas as outras do bairro.
Primeiro foram suas amigas que foram lhe visitar. Depois os vizinhos, que nem intimidade tinham. Depois vieram os repórteres dos jornais locais junto com o prefeito, então finalmente começou a peregrinação.
Pessoas vieram de toda parte. Alguns queriam ver com os próprios olhos, outros pretendiam roubar uma manga, outros queriam cortar mudas, outros queriam rezar sob seus galhos. E por um tempo todos foram bem-vindos.
Ela dividiu as muitas frutas com quem pedia, e até deixou cortarem alguns galhos. Mas achava estranho mesmo era aquele povo todo fazendo fila pra chorar debaixo de sua árvore, pedindo compaixão e milagres.
Tudo isso durou poucos dias, até uma tarde mais quente que todas as outras tardes, quando alguém que disse ter esperado demais resolveu parar de esperar. Abriu caminho com uma pistola na mão, e exigiu mangas pra encher a sacola de supermercado que trazia consigo. Os policiais a postos tiveram de negociar a rendição do bandido e a entrega da sacola com as poucas mangas, naquela altura uma preciosa refém. O perigoso sequestrador foi preso no momento que despontava na esquina uma comitiva de grandes carretas brancas, que traziam homens brancos vestidos de branco.
Sua folhas continuavam a crescer, suas mangas continuavam mais doces nos galhos mais baixos, mas não se podia chegar perto dela. Havia agora uma grande tenda armada no pequeno quintal. Os homens disseram à menina que cuidariam bem da árvore, à sua mãe que aquela planta era propriedade pública, lhe deram um bom dinheiro, e as colocaram num hotel luxuoso enquanto faziam suas experiências.
Não conseguiram fazer com que as mudas vingassem, nem descobriram nada de especial naquela mangueira. A última árvore viva no planeta era uma simples mangueira de quintal.
--
Sumiram os insetos que comiam frutas. Desapareceram os pequenos animais que comiam os insetos. As aves perderam seus ninhos e morreram de fome. O mar esquentou e dizimou os peixes. Geleiras derreteram e cidades foram inundadas. Os primeiros homens a morrer foram no caos dos próprios homens, depois muitos se afogaram nas águas, outros sucumbiram ao calor, e então finalmente começaram a perecer pela fome.Os ricos tinham pílulas, tinham estoques de ração e de comida enlatada, mas também não duraram muito tempo. A primeira extinção tinha sido a das plantas, e agora era de todo o resto.
A menina não sentiu dor nem fome. Chorou por dias, e quando finalmente conseguiu dormir não acordou mais. Ficou perdida no mundo dos sonhos, onde sua árvore lhe faria companhia pra sempre, e onde todas as outras plantas ainda eram verdes e davam frutas de todas as outras cores.
--
Tudo terminou numa sexta-feira.
Mas não havia mais ninguém pra diferenciar aquele dia dos outros dias da semana.
Só havia no mundo uma árvore, uma grande mangueira, com seus frutos doces nos longos galhos que já não eram tão baixos. Por muito tempo ela ainda floresceu, até suas frutas não mais brotarem, e suas folhas começarem a cair. Até restar só uma.
Era uma noite fria quando a última folha caiu, e um vento a soprou pra longe. Então a pequena folha esperou amanhecer, abriu os olhos e saiu andando pra conhecer seu mundo.
A primeira, já muito velha, vivia num bosque esquecido na Romênia. Ninguém percebeu.
A segunda estava no pátio central de uma grande empresa canadense. E mesmo assim ninguém percebeu.
Uma a uma elas secaram, e assim ficaram. Mortas. De pé.
--
A menina nem era tão menina assim. Já tinha conhecido o amor e a decepção. Já tinha quebrado o braço e escrito nomes por todo o gesso. Já tinha passado mal de tanto comer as mangas do seu quintal.
A pequena mangueira estava lá desde antes de se mudarem praquela casa apertada. Sua mãe havia tentado cortar a árvore pra ganhar espaço pra um novo varal, mas desistiu depois do choro desesperado da filha, que se apegara à planta como se fosse uma amiga.
A condição foi que a filha varresse as folhas caídas todo santo dia, e que não inventasse de se machucar com o balanço improvisado (promessa essa que não conseguiu cumprir). Sua primeira e melhor amiga foi aquela mangueira, que ouvia sobre os meninos da escola, que servia de sombra nos dias quentes, que fazia crescer as mangas mais deliciosas nos galhos mais baixos, só pra menina conseguir alcançar.
Cresciam juntas, cresciam rapidamente.
--
Não havia pressa.
Os jornalistas só começaram a escrever quando o aumento das temperaturas já era constante e ininterrupto. Um grau a cada mês. Os ambientalistas fizeram piquetes, os profetas do apocalipse subiram em seus caixotes pregando a desgraça da humanidade, os industriais disseram que não tinham culpa.
Foi então que, cruzando dados, eles perceberam o que ocorria.
Florestas inteiras secaram. Pastos, campos e até manguezais secaram. Plantas de todos os tipos, por todo o planeta, sem qualquer motivo aparente, simplesmente secavam e morriam. De pé.
--
A aula tinha sido cancelada, o que trazia um certo alívio. Ter de pensar em vestibular naquele calor era demais pra ela. Resolveu ir pra casa andando, cortando caminho pelo pequeno bosque que ficava entre sua casa e a escola. Conhecia o lugar muito bem, pois já tinha supostamente se deixado conduzir pra alguns daqueles cantos por um ou outro rapaz.
Sorria pensando nisso quando parou pra ver a grama amarelando diante de seus olhos. As goiabas dos pés próximos caíam, podres. Antes de chegar em casa, todo aquele bosque secara.Ela correu em disparada, com o coração apertado, temendo por sua mangueira. Aquela loucura noticiada na TV finalmente começava a acontecer por perto.
--
Pois agora não havia retorno. Mesmo as sementes estocadas viravam pó, mesmo as mais bem cuidadas estufas não conseguiam reter a vida das plantas mais simples. Era como se todas tivessem sido envenenadas, ao mesmo tempo, por todo o planeta. Só as plantas.
As presidentes, primeiros-ministros e ditadores foram à televisão. Disseram que suas pátrias não precisavam temer, que haviam planos de emergência, que haviam estoques de comida, que tudo ficaria bem. Mentiram, como sempre.
Os homens que sempre viveram da terra choravam e rezavam à seus deuses. Os homens que sempre acreditaram não viver da terra choravam e rezavam à sua ciência. Mas a natureza não ouviu o choro de ninguém. Nem as orações.
--
A menina já não saía de perto de sua árvore há alguns dias. Tinha medo que se virasse as costas sua mangueira secaria como todas as outras do bairro.
Primeiro foram suas amigas que foram lhe visitar. Depois os vizinhos, que nem intimidade tinham. Depois vieram os repórteres dos jornais locais junto com o prefeito, então finalmente começou a peregrinação.
Pessoas vieram de toda parte. Alguns queriam ver com os próprios olhos, outros pretendiam roubar uma manga, outros queriam cortar mudas, outros queriam rezar sob seus galhos. E por um tempo todos foram bem-vindos.
Ela dividiu as muitas frutas com quem pedia, e até deixou cortarem alguns galhos. Mas achava estranho mesmo era aquele povo todo fazendo fila pra chorar debaixo de sua árvore, pedindo compaixão e milagres.
Tudo isso durou poucos dias, até uma tarde mais quente que todas as outras tardes, quando alguém que disse ter esperado demais resolveu parar de esperar. Abriu caminho com uma pistola na mão, e exigiu mangas pra encher a sacola de supermercado que trazia consigo. Os policiais a postos tiveram de negociar a rendição do bandido e a entrega da sacola com as poucas mangas, naquela altura uma preciosa refém. O perigoso sequestrador foi preso no momento que despontava na esquina uma comitiva de grandes carretas brancas, que traziam homens brancos vestidos de branco.
Sua folhas continuavam a crescer, suas mangas continuavam mais doces nos galhos mais baixos, mas não se podia chegar perto dela. Havia agora uma grande tenda armada no pequeno quintal. Os homens disseram à menina que cuidariam bem da árvore, à sua mãe que aquela planta era propriedade pública, lhe deram um bom dinheiro, e as colocaram num hotel luxuoso enquanto faziam suas experiências.
Não conseguiram fazer com que as mudas vingassem, nem descobriram nada de especial naquela mangueira. A última árvore viva no planeta era uma simples mangueira de quintal.
--
Sumiram os insetos que comiam frutas. Desapareceram os pequenos animais que comiam os insetos. As aves perderam seus ninhos e morreram de fome. O mar esquentou e dizimou os peixes. Geleiras derreteram e cidades foram inundadas. Os primeiros homens a morrer foram no caos dos próprios homens, depois muitos se afogaram nas águas, outros sucumbiram ao calor, e então finalmente começaram a perecer pela fome.Os ricos tinham pílulas, tinham estoques de ração e de comida enlatada, mas também não duraram muito tempo. A primeira extinção tinha sido a das plantas, e agora era de todo o resto.
A menina não sentiu dor nem fome. Chorou por dias, e quando finalmente conseguiu dormir não acordou mais. Ficou perdida no mundo dos sonhos, onde sua árvore lhe faria companhia pra sempre, e onde todas as outras plantas ainda eram verdes e davam frutas de todas as outras cores.
--
Tudo terminou numa sexta-feira.
Mas não havia mais ninguém pra diferenciar aquele dia dos outros dias da semana.
Só havia no mundo uma árvore, uma grande mangueira, com seus frutos doces nos longos galhos que já não eram tão baixos. Por muito tempo ela ainda floresceu, até suas frutas não mais brotarem, e suas folhas começarem a cair. Até restar só uma.
Era uma noite fria quando a última folha caiu, e um vento a soprou pra longe. Então a pequena folha esperou amanhecer, abriu os olhos e saiu andando pra conhecer seu mundo.
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